A primeira vez que Beatriz Santos ouviu na vida que é “aceita” do jeito que é pela mãe, Mônica, foi dentro de um reality show. Como tantos de nós, pessoas da comunidade LGBTQIAPN+, ela também lutou por anos pela aprovação dos pais… para ser ouvida por completo dentro de casa.
Essa luta tão dolorosa e conhecida pelos queer foi exposta de maneira extremamente vulnerável em “Sua Mãe Te Conhece?”, nova aposta da Netflix, que traz mães e filhos em uma dinâmica complicadíssima e instigante, sob comando de Claudia Raia.
Apesar das falas sobre sexualidade que provocaram forte repercussão e foram discutidas no próprio programa, Beatriz não resume sua relação com a mãe aos episódios que o público assistiu. Em entrevista exclusiva ao Purepeople Brasil, a jovem de 24 anos, criada na Zona Oeste do Rio, falou sobre a experiência no reality, a relação com Mônica, a própria sexualidade e o que mudou entre as duas depois do programa.
“A gente sempre teve uma relação muito amorosa, carinhosa, mas realmente o assunto sexualidade era um tabu entre a gente”, conta a jovem, conhecida como Beazin nas redes sociais. Segundo ela, o tema foi ficando de escanteio ao longo dos anos para evitar que o desgaste ficasse ainda maior. Só que, no reality, não teve muito como fugir.
Beatriz entrou na atração achando que gravaria “A República”, sem nem desconfiar que as mães acompanhavam cada passo dos participantes. Fã assumida de reality show - do tipo que gosta de assistir a programas de família do lado dos próprios parentes -, ela foi pega de surpresa pela reviravolta.
No início, ninguém imaginava a presença das mães no jogo. Foi só depois da eliminação de Rafa que a casa percebeu que havia algo no ar. Ainda assim, a ficha não caiu de primeira. A desconfiança só ganhou força na "sala do desabafo", onde eles recebiam conselhos e perguntas acolhedoras. “Pareciam que eram pessoas que conheciam bastante a gente. Então acho que nesses momentos a gente chegava a desconfiar um pouco", confessa Beatriz.
© Divulgação, Netflix
Se entender a dinâmica foi um choque, expor a própria sexualidade para as câmeras exigiu uma coragem à parte! Beatriz sabia que a conversa não parava nela. Existia ali a chance de outras pessoas se enxergarem naquela mesma cobrança por aceitação.
“Falar sobre o assunto da minha sexualidade e ser vulnerável sabendo que isso estaria aí para o Brasil e para o mundo todo foi uma responsabilidade muito grande porque eu sabia que eu não estava falando só por mim. Eu estava falando por milhares de brasileiros que passam por essa mesma realidade dentro de casa", acrescenta ela.
Bia expressa ser uma dor velada e pouco dita. E o medo de expor tudo e ver que nada mudaria na prática era real: “Foi algo muito difícil, principalmente por ter essa responsabilidade e por ter medo de que nada mudasse, de que talvez a gente não conseguisse transformar a nossa história".
Durante o programa, Beatriz contou que, quando beijou uma menina pela primeira vez, chegou a rezar para conseguir mudar e não decepcionar a mãe: “Jesus, me ajuda". Em outro momento, ela também lembrou: “Sempre fui aquela criança que gostava de agradar o pai e a mãe”. São frases muito fortes que deixam claro por que esse assunto acabou engavetado por tanto tempo na casa delas.
Em um dos episódios, mãe e filha finalmente conversam sobre isso. Beatriz fala sobre a frustração de sentir que Mônica não a aceitava e diz que isso a deixava triste. A mãe responde que sempre a aceitou e pergunta se a filha duvida disso. “Você nunca falou isso - ‘eu te aceito como você é’", dispara Beazin, com lágrimas nos olhos e a voz embargada. É uma das cenas que mais chamaram a atenção na temporada!
“Eu acho que o programa abriu espaço para a gente poder conversar sobre isso novamente de uma forma mais madura, em um ambiente que a gente conseguiu ali sair da nossa bolha, da nossa realidade. Isso foi essencial para ver o que faltava", diz ela. Depois de tudo que aconteceu no reality, Bia diz que a relação com a mãe mudou.
"Definitivamente, isso mudou as nossas vidas para sempre. Hoje a minha relação é outra e eu sei que minha mãe de fato aceita minha sexualidade e aceita quem eu realmente sou", garante. Por isso tudo, ela recusa o papel de vítima e prefere olhar para o processo como um passo necessário. “Graças a Deus foi uma realidade positiva e eu espero que muitas famílias possam ser transformadas pelo nosso exemplo".
© Divulgação, Netflix
A repercussão nas redes pegou fogo após algumas falas de Mônica ligando a sexualidade da filha à sua fé religiosa. Em um momento tenso, a mãe diz crer em Deus e afirma ter esperança de que aquela não é a realidade final da filha, soltando que “a mudança dela ainda vai vir”.
A declaração também bateu mal na casa. Adriana, mãe do participante Pedro (que é gay), cortou Mônica na hora: “Não faz isso. Deixa ela ser quem ela é. Deus não vai mudar nada! Ela só gosta de menina. Nada mais! Ela veio assim". Na internet, o assunto rendeu duras críticas, claro! Só que Beatriz prefere não alimentar a fogueira nem lavar roupa suja em público...
Com mais de 290 mil seguidores no Instagram, a jovem entende bem como funciona o "cancelamento" (linchamento virtual, em outras palavras). “Eu já trampo com a internet faz um tempo, então eu sei como funciona. Eu sei que as pessoas têm direito de opinar, até porque, quando algo vai para um reality, se torna algo público em que as pessoas têm, sim, direito de se emocionar, de opinar, de concordar ou discordar".
Ela compreende o barulho de quem assiste, mas deixa claro de quem é a palavra final sobre a família dela: "Com relação a isso [críticas], eu prefiro tratar diretamente com a minha mãe".
“Relação familiar é algo muito complexo e nem sempre a gente vai concordar com tudo que as pessoas que a gente ama falam. Mas não é por isso que essas pessoas não vão ser importantes, que elas não fazem parte da nossa história", completa.
Depois de ver a mãe sendo tão comentada nas redes, Beatriz também gostaria que o público conseguisse enxergar Mônica para além dos momentos que viralizaram. “Eu gostaria que as pessoas pudessem conhecer minha mãe por completo assim como eu conheço. Só eu convivi com ela desde o nascimento. E vice-versa também. Então acho que só a gente conhece todas as nuances uma da outra", reflete.
Para ela, assistir ao reality inteiro ajuda a entender esse processo. “Eu acredito que, se as pessoas assistirem o reality por completo, elas vão conseguir olhar para a minha mãe com carinho, ver a transformação dela e ver principalmente a transformação da nossa relação", expressa, esperançosa. “O reality fez a gente se tornar muito mais próxima e tornou a nossa relação muito melhor".
Talvez seja essa a parte mais difícil de explicar quando uma história familiar vai parar na televisão: o público conhece alguns episódios, algumas falas, algumas lágrimas. A família conhece todo o resto.
É fácil para nós, como espectadores, receber um recorte de uma história e decidir rapidamente quem está certo e quem está errado. Também é fácil transformar uma mãe em vilã, uma filha em vítima perfeita ou reduzir tudo a uma discussão sobre opiniões diferentes. Só que, nesse caso, existe uma história muito maior do que os episódios exibidos.